PEIC | JUNHO 2026
ENDIVIDAMENTO EM SALVADOR CHEGA A 77,3% DAS FAMÍLIAS, MAIOR NÍVEL EM MAIS DE 15 ANOS, AVALIA FECOMÉRCIO BA.
Inadimplência sobe levemente para 22,5% em junho, após seis quedas consecutivas.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), elaborada mensalmente pela Fecomércio BA, registra novo avanço no endividamento das famílias de Salvador. Em junho, 77,3% dos lares tinham algum tipo de dívida, ante 76,4% em maio — o maior nível registrado fora do período inicial da série, em 2010, quando os índices chegaram a superar 86%. Entre as famílias com renda de até 10 salários-mínimos, o indicador chegou a 79,9%, ou seja, praticamente 8 em cada 10 famílias soteropolitanas nessa faixa de renda estavam endividadas em junho. São 787,7 mil famílias endividadas na capital baiana, um crescimento de cerca de 9,8 mil em relação ao mês anterior e de quase 145 mil na comparação com junho de 2025, quando o indicador era de 68,2%.
A composição das dívidas traz sinais que merecem atenção. O cartão de crédito segue dominante, presente em 92,6% dos endividados, mas o dado mais relevante está no avanço do crédito consignado e do crédito pessoal. O consignado chegou a 7,4% em junho, acumulando alta desde julho de 2025, quando estava em 5,9%, atingindo o maior patamar dos últimos anos. O crédito pessoal, por sua vez, registra trajetória ainda mais acentuada — saiu de 4,1% em julho de 2025 para 7,3% em junho, praticamente dobrando em menos de um ano. Essas duas modalidades, de curto e médio prazo, indicam que parte das famílias está recorrendo ao crédito não para projetos ou investimentos, mas para manter o consumo do dia a dia em um ambiente de inflação pressionada, especialmente em itens essenciais. Em sentido oposto, o financiamento de casa, que exige compromisso de longo prazo e é mais sensível ao nível dos juros, segue em queda e ficou em apenas 1,9% em junho, reforçando que o crédito acessado pelas famílias é predominantemente de curto prazo e voltado a despesas correntes.
Pelo lado da inadimplência, a PEIC registra leve alta após seis quedas consecutivas. Em junho, 22,5% das famílias tinham contas em atraso, ante 22,2% em maio — uma variação de apenas 0,3 ponto percentual. São aproximadamente 228,8 mil famílias inadimplentes, cerca de 3 mil a mais do que no mês anterior. O indicador permanece bem abaixo dos 24,0% registrados em junho de 2025, o que reforça a leitura de que o quadro geral de redução da inadimplência ao longo dos últimos doze meses segue preservado.
Por faixa de renda, o percentual de famílias com contas em atraso ficou em 22,5% entre aquelas com renda de até 10 SM e em 6,5% entre as de renda superior a 10 SM. A diferença expressiva entre os grupos reflete a maior capacidade das famílias de renda mais elevada de honrar seus compromissos financeiros, seja pelo acesso a reservas ou por condições de crédito mais favoráveis.
O percentual de famílias que declaram não ter condições de quitar suas dívidas em atraso subiu ligeiramente para 9,0% em junho, ante 8,8% em maio, representando aproximadamente 91,5 mil lares nessa situação mais delicada. A variação é pequena e o indicador permanece próximo dos menores níveis já registrados na série histórica da pesquisa, sugerindo que, apesar da alta pontual da inadimplência, o perfil dos devedores não se deteriorou de forma relevante. O tempo médio de atraso ficou em 64,1 dias, praticamente estável em relação ao mês anterior (64,4 dias), reforçando essa leitura.
A PEIC de junho traz um elemento qualitativo relevante para a leitura do cenário: o fato de a inadimplência se manter em patamar relativamente controlado já alguns meses após o início do conflito internacional e seus efeitos sobre a inflação doméstica revela uma resiliência importante das famílias soteropolitanas. Mesmo diante de uma inflação mais intensa e da necessidade crescente de recorrer ao crédito para manter o consumo do dia a dia, as famílias têm se mantido firmes no pagamento de seus compromissos financeiros. Com o fim da guerra, ainda deve levar algum tempo para que os preços se acomodem e retomem patamares mais baixos. Mas o ponto positivo é que, caso haja alguma deterioração da inadimplência nos próximos meses, ela tende a ser residual e pontual — reflexo de um ajuste transitório, e não de uma ruptura na capacidade de pagamento das famílias.

