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Os rumos do comércio em 2026 – Fabio Bentes

Central do Conhecimento, Publicações
6 de fevereiro de 2026

Os rumos do comércio em 2026 

Economista-chefe da CNC analisa juros, Reforma Tributária, comércio exterior e oportunidades para empresários 

Por: Emanuelle Pereira

Mesmo diante de juros elevados e crédito restrito, a economia brasileira mostrou resiliência em 2025, com destaque para o consumo e o forte desempenho do turismo. Nesta entrevista, Fabio Bentes, economista-chefe da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), analisa os fatores que sustentaram esse cenário, os efeitos do “tarifaço” dos Estados Unidos, os desafios e impactos da Reforma Tributária com a adoção do IVA dual e as perspectivas para o comércio de bens, serviços e turismo em 2026. O conteúdo também aponta setores com maior potencial de investimento e estratégias para empresários em um ambiente global mais incerto. 

Apesar dos juros elevados e crédito restrito, o consumo no Brasil se manteve resiliente em 2025. É possível que esse cenário se sustente ao longo deste ano? 

O histórico recente mostra que o consumo ainda está crescendo no Brasil, mas ele vem perdendo força, foi assim ao longo do ano passado, por conta de uma taxa básica de juros num recorde histórico em 20 anos, 15% ao ano é uma taxa que a gente não via desde 2006. Esse é o lado ruim da história. O lado bom, quando a gente olha para frente, é que embora o Banco Central tenha mantido os juros nesse patamar na reunião de janeiro do Copom, a expectativa é que eles comecem a cair a partir da próxima reunião, em março; não se sabe ainda muito bem qual é a magnitude, mas deve ser algo em torno de meio ponto percentual. Isso deve aliviar um pouco o aperto que os juros impuseram sobre o comércio e sobre as famílias. 

O turismo foi um dos principais motores da economia brasileira em 2025. Quais políticas públicas e estratégias privadas foram decisivas para esse desempenho e como manter esse ritmo em 2026? 

Vimos que os juros ficaram lá em cima, num patamar muito elevado. Isso não afeta tanto o setor de serviços – não que o setor seja imune aos juros, ele não é, mas é menos afetado do que, por exemplo, o comércio de bens. O que vimos no setor de turismo ao longo do ano passado foram dois fatores que impulsionaram o volume de receitas do setor. Primeiro, um bom momento no mercado de trabalho, com a renda crescendo acima da inflação, com a taxa de desemprego baixa, o que fomenta o turismo doméstico, porque abre espaço no orçamento para esse tipo de gasto.  

E teve um segundo fator, que foi a chegada ao recorde de turistas estrangeiros no Brasil: 9 milhões de turistas no ano passado, que é um recorde histórico para o nosso País, mesmo sendo um patamar ainda muito pequeno perto do potencial que o Brasil tem. Mas, de qualquer forma, esse turista estrangeiro vindo com mais frequência ao País, acaba ajudando o setor de turismo e a economia como um todo, porque é um turista com renda per capita mais elevada do que o turista doméstico. E mais, a gente teve a recuperação da Argentina, ainda que parcial, que é o principal emissor de turistas para o Brasil, como um indutor desse movimento do número de turistas estrangeiros. 

O setor privado faz a parte dele. Se você pegar a infraestrutura de turismo privada no Brasil, por exemplo, hotéis, o setor de alimentação, presta serviços no mesmo nível dos grandes receptores de turismo internacional. O que falta é a contrapartida do Estado, tem coisas que o setor privado não consegue prover, e a principal delas é a segurança pública. Se você tem uma sensação de insegurança elevada, como infelizmente temos em várias cidades turísticas do Brasil, isso acaba limitando os efeitos positivos dessa chegada de turistas estrangeiros e até mesmo de turistas domésticos. 

Na sua leitura, o “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos representa um risco estrutural ao comércio de bens e serviços no Brasil ou tende a ser um choque pontual, com efeitos limitados no tempo? 

De fato, quando o tarifaço foi anunciado, assustou os brasileiros, assustou o mundo. Primeiro, não é uma política direcionada exclusivamente para o Brasil, é uma estratégia de negociação do Governo Norte-Americano. Isso causou um susto inicial muito grande, haveria perdas bastante significativas, mas o que a gente viu de lá para cá foi uma flexibilização dessa barreira tarifária. 

E um fator que ajudou a atenuar isso foi a pressão dentro dos Estados Unidos para que essas tarifas fossem reduzidas. Setor de café, suco de laranja, enfim, vários setores pressionaram o governo americano e isso também surtiu efeito e a situação que parecia catastrófica se tornou uma situação desfavorável e concentrada em alguns setores especificamente. 

Com a implementação da reforma tributária em 2026, quando o comércio deve sentir, na prática, os benefícios do IVA dual e quais serão os principais desafios da transição até 2033? 

Os efeitos da Reforma Tributária preocupam o setor terciário no Brasil. É importante pontuar que a CNC é a favor de uma reforma tributária, porque o Brasil tinha, até 2025, um sistema tributário muito complexo, o que gerava custos para as empresas. O problema é que foi aprovado um novo sistema de tributação, que, embora seja mais simples, primeiro vai coexistir com esse sistema complexo por um tempo. 

Então a complexidade vai aumentar, uma vez que coexistirão dois sistemas para serem apurados. Mas o que mais preocupa é que o setor terciário é que vai pagar a conta dessa Reforma Tributária, porque, no processo de geração de crédito, que é uma característica do Imposto no Valor Agregado (IVA), o setor de serviços tem muito pouco crédito para ser apropriado. Então, digamos que a alíquota seja de 25%, uma empresa do lucro presumido, por exemplo, está em uma alíquota dos impostos envolvidos na tributação do consumo de 3,65%, essa alíquota vai saltar para 25%.

Ele vai poder abater essa alíquota nominal através da geração de crédito, contudo o setor de serviços tem como principal custo a folha e não a compra de insumos, por exemplo. Então, certamente, o setor de serviços não vai conseguir gerar algo perto de 22% de crédito para abater uma alíquota de 25%. 

E o que é pior: a alíquota inicial parte de 26,5%, mas ela ainda não foi definida. Se a gente adotar uma alíquota de 27%, a gente vai empatar com a Hungria como o país que mais tributa consumo no mundo, tendo como referência uma alíquota nominal que vai ser estabelecida. 

Quais setores do Comércio de Bens, Serviços e Turismo tendem a oferecer as melhores oportunidades de investimento no Brasil em 2026? 

O que a gente tem visto no varejo nos últimos anos é o consumo ainda muito concentrado em itens essenciais, como alimentação e farmácia. Então, não vejo uma mudança radical nesse cenário, visto que esses setores essenciais tendem a ter um retorno do investimento mais rápido do que outros. 

Portanto, se fôssemos alocar o investimento no setor de comércio, o foco seria na área de alimentação, saúde, cuidados pessoais, medicamentos, já que esses segmentos tendem a ser mais vantajosos, por produzirem um retorno mais rápido do que outros segmentos, como, por exemplo, o comércio automotivo que também vai sofrer com a concorrência de produtos vindos da União Europeia. 

Diante do cenário global incerto, quais estratégias o senhor recomenda para empresários se prepararem para 2026 e manterem a competitividade? 

Devemos ter um ano de 2026 marcado, no cenário interno, por uma redução da taxa de juros sobre a qual o empresário não tem controle, mas pode, na medida do possível, buscar alternativas de financiamento mais vantajosas. 

Por isso o Brasil deve seguir essa tendência de buscar parceiros comerciais relevantes. E quando eu falo Brasil, não é só o Governo, são os empresários também, já que o cenário americano ficou tão adverso e o empresário brasileiro que exporta para lá sofreu muito com isso.