PEIC | AGOSTO 2026
INADIMPLÊNCIA EM SALVADOR AVANÇA PELO SEGUNDO MÊS CONSECUTIVO E ATINGE 25,0% EM AGOSTO, AVALIA FECOMÉRCIO BA.
Endividamento supera 80% entre famílias de menor renda e comprometimento da renda com dívidas sobe para 31,8%, enquanto crédito consignado atinge maior patamar da série histórica recente.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), elaborada mensalmente pela Fecomércio BA, registra nova alta na inadimplência das famílias de Salvador em agosto. O percentual de famílias com contas em atraso avançou de 24,1% em julho para 25,0% em agosto — segundo mês consecutivo de elevação, após a sequência de quedas observada entre outubro de 2025 e maio de 2026. São 255 mil famílias inadimplentes na capital baiana, cerca de 10 mil a mais do que no mês anterior. Na comparação anual, o indicador voltou ao patamar de setembro de 2025, reforçando que a trajetória de melhora acumulada no 1º semestre foi integralmente revertida nos últimos dois meses.
O endividamento avançou marginalmente para 77,4%, com 789 mil famílias com algum tipo de dívida em Salvador — patamar que permanece historicamente elevado pelo nono mês consecutivo acima de 75%. O dado mais expressivo, contudo, vem da faixa de menor renda: entre as famílias com renda de até 10 salários mínimos, o endividamento cruzou pela primeira vez a marca de 80%, chegando a 80,0% em agosto. Esse nível inédito na série recente evidencia que a pressão sobre o orçamento doméstico das famílias de menor renda segue se aprofundando.
A composição das dívidas traz um sinal que merece destaque. O crédito consignado atingiu 7,7% em agosto, o maior patamar desde o início do acompanhamento da série — acumulando alta quase ininterrupta desde julho de 2025, quando estava em 5,9%. Essa trajetória, combinada com a do crédito pessoal (6,6%), reforça a leitura de que parte crescente das famílias soteropolitanas está recorrendo a modalidades de crédito de curto e médio prazo não para projetos ou investimentos, mas para recompor o orçamento corroído pela inflação. O cartão de crédito segue dominante, presente em 92,5% dos endividados, enquanto o financiamento de casa avançou levemente para 2,6%, ainda em patamar reduzido frente ao histórico.
A piora da inadimplência foi disseminada entre as faixas de renda. Entre as famílias com renda de até 10 salários mínimos, o percentual com contas em atraso subiu de 26,1% para 27,0%, com o comprometimento médio da renda chegando a 32,9%. Entre as de renda superior a 10 salários mínimos, a inadimplência avançou de 7,7% para 8,8%. O percentual de famílias que declaram não ter condições de quitar suas dívidas em atraso subiu de 10,3% para 11,3%, segundo mês consecutivo de alta. O percentual de famílias com dívidas há mais de 90 dias chegou a 47,1%, ante 45,2% em julho, indicando crescente cronificação da inadimplência. No consolidado geral, o comprometimento médio da renda com dívidas subiu para 31,8%, com 27,6% das famílias endividadas comprometendo mais de metade da renda — sinais de que o espaço de manobra no orçamento doméstico segue se estreitando.
A PEIC de agosto confirma que, apesar de os preços virem apresentando uma trajetória de arrefecimento após o pico inflacionário associado ao conflito internacional, o ritmo de desaceleração ainda é insuficiente para produzir alívio concreto no orçamento das famílias soteropolitanas. O custo de vida segue elevado, e é nesse ambiente que a inadimplência acumula o segundo mês consecutivo de alta, o endividamento se mantém em patamar historicamente elevado e o comprometimento da renda com dívidas segue crescendo. Enquanto a inflação não recuar a níveis que permitam uma recuperação efetiva do poder de compra, as famílias tendem a continuar dependendo do crédito para sustentar o consumo cotidiano — e os sinais de estresse financeiro observados na pesquisa refletem exatamente esse desequilíbrio.